Silveira

El mundo en una taza de té

Publicado en Uncategorized por Silveira en Noviembre 28, 2007

Uno a veces se pone a pensar. De un tanto a otro ya no recuerda si camina en dirección a una plaza para tomarse una caña o si está sentado en la mesa para la cena, si le toca escurrir la pasta o guardar una docena de folios que le serán indispensables en el día de mañana para el trabajo. Tampoco le interesa demasiado el tiempo, si es tarde o temprano, al menos que su análisis parta de reconocer que el tiempo no es más que un gran hilo débil y pegajoso que hace curvas alrededor de sí mismo, hasta tragarse a su propia cola. En este momento, habiendo expurgado los reclames infantiles de esta realidad mentirosa y, por qué no, irreal, uno intégrase a lo que siempre ha sido, este ser mucho más conectado a lo que no es, a lo que no se toca, ni se ve. Uno se pone a pensar. Y es ahí donde el real desafío del hombre, como extremo de un inmenso y complejo enmarañado de relaciones sociales y sicológicas, se pone al descubierto, exponiendo una especie de juego de lógicas absurdas y desnecesarias. El pensador no precavido, al llegar a este punto, seguramente intuiría su derrota, quitaría sus peones y ofrecería un avergonzado rey al enemigo fantasma, que no pasa de una simples trampa que ha sido armada por su propio miedo a conocer y afrontar nuevas verdades, si tomamos como válido el hecho de que las antiguas verdades todavía son válidas en tal punto de involucración y comprometimiento. Pero al pensador que avanza su infantería armada de largas lanzas y le rasga el pecho al caballo amenazador, a este se le guarda el deslumbre del silencio, como si fuera un eremita durmiendo, bajo las estrellas, al borde del Katmandú. Y uno hace la reflexión de lo que es sólo suyo y le pertenece, y piensa en sus raíces, y las raíces de sus raíces, como si reconstruyera el inmenso árbol de su descendencia, comprobando el frescor y la podredumbre que quizá pueda encontrar en su subida hacia el colmo. Tambaleando sobre el ramo más alto en que se encuentre a gusto y confortable, uno se pone a reflexionar, al paso que mordisquea una amarga hoja que le remete al viejo mate al pie de los eucaliptos, de lo porqué de escribir por escribir y quemar su tiempo con la literatura, como si quemara un pucho, libertando un humo tan carente de preguntas como de respuestas, sin que a nadie le interese tragarlo o discutirlo. Uno piensa, cuándo ya ha dejado de mordisquear las hojas verdes y empieza a interesarse por el paisaje que desde ahí puede disfrutar, en lo porqué de escribir en un mundo donde la verdad se la deciden otros, y no tú, que debería ser único dueño y posesor de una verdad que sólo puede existir si es subjetiva. Cuando se le arrebata la brisa fresca y húmeda que parece bajar desde el cielo, contorneándole los brazos y despertándole las piernas que ya se sentían muertas, presionadas por un ramo del dicho ramo, uno baja cuidadosamente del árbol, se pone a caminar entre las trampas ya desarmadas de su infinitud de autodefensas y paranoias, hasta recordarse de que el agua ya se ha calentado para el té, por lo que retira su mano de dentro del saco de hojas frescas y las hecha con cuidado a la taza, con el pensamiento fijo en no derribarlas al suelo y dejarlas inutilizables por la suciedad.

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Miltinho, Gutemberg e a Mancha

Publicado en Uncategorized por Silveira en Noviembre 26, 2007

Era um tipo raro. Diz-se que foi impresso na vida. E diz-se que batizado no benzeno. Nasceu filho de gráficos, de prole que fede a solvente. Nada mais dar com o mundo, matéria riquinha, era. No se criar é que faltou, restando um chumbaço disforme, cinza e fátuo, no qual a vida descuidou moldar uma letrinha.Sendo homem, lhe criam só. Era moço de não-os-toco, cheio de calados. “Chapa de um único tipo, singletype?” – roufinhava o pai, imprimindo o tema. “Era fora de registro, homem, homogênio assim, descasar para sempre” – compunha a mãe. Estampavam-lhe o destino à cara.  Miltinho só mimicava.

“Trabalho é concha de homem”, encucava ele, moçudo. Dava com viver na gráfica, progênita, suando segundos. Seu relógio tictaqueava no clanc, da tipográfica. Libertados prisioneiros verdes, clanc; o biodiesel é a fome, clanc; o contracambio climático, clanc. Pulsava clanqueando e a numeradora marcava seu tempo.

Autêntico dizer que a tipográfica era ímpar no raio. Mentira que, isso, configurasse feito enriquecente. “Tipografar, só a máquina do estado”, rezava o rei, rijo. Restava tintar subvercores. Imprimiam um vil-vão verde volante, para o probido partido “Primeiro o Planeta”. Nem soubessem, sabendo, do tema. Nadavam. Mas era até sonoro de ver, família de lutadores de algo por alguém. Isso sim, sabiam de cor: a vinílica verde-amazônia, com que tintavam tudo. Era cheiro que apalpava neles. Falaram-lhes nariz da revolução.

 

Mas aposentavam, os pais, desvivendo. Foi aí, berro de oportunismo, que Miltinho caiu em paixão. Chegou em casa sem cor, sedento: “Pais: caso”. E casou com a Mancha, moça vinílica, densa, mas de alma molengosa e cheia. Miltinho gostava de cheiro nela. Os pais chegaram ao que já seria: hora de Miltinho herdar a tipográfica.

 

Foi vidar mais a Mancha bem no alto da colina, debaixo das emputecidas do cafetão Alírio. Era poço, porão, fedente a chumbo, tinta e oco. Parecia ório único, dividido em dormitório, mictório e refeitório. Ali pôs a tipográfica, ferrada. Tarugona, ocupando, eles viviam periféricos dela, estreitados.

 

Chumbo, tinta, papel e clanc. Mal prendiam as luzes do povoadinho, clanc: girava o rodão falante da tipográfica. Clanc, libertados prisioneiros verdes; clanc, novas pautas à luta clandestina; clanc clanc, vida retoma seu rumo selvagem. Daí até crepuscular o dia que viria, clanc, ela imprimiria o pulso, só calando aos quinze clancs para as sete. Na manhã, Miltinho manchava-se.

Do partido, só viam salpicar o Manjericão, apodo do homem alto, adiposo, resbalento, representativo dos verdes. Costumava sextafeirar, sem descumprir; plantava-se ali, com um montículo de folhas calizmente grafadas e os pagares. Era dia de festejar, dia do Manjericão. Miltinho atentoso, feito abelha colmeiando, punha e punha as folhas até pilhar-las perfeitinhas à galera de tipos, ao passo que a Mancha ensacolava os bilhetes da ganância. Desse jeitinho, de punha e passo, perduravam, pequenos e pacientes.

Tecia-se noite seca e fazia-se bom, à rua. A máquina tirava firme, clanqueando, maldormindo o povo. Carrosselava, feito em circo, só que sem o engraçar-se. Daí foi que a Mancha viu e “Oh! O clanc rachou o chão”. Ele manvivelou para off e sapeou ao lado, calado. Deu vintinho antes de descalarem: “Deve que sossegou-se”.

Parecia que o mundo shiiiii. Estopou a testa, secando o nervoso. Intercalou os pés, cercando o ruído. Ele mais a Mancha, ponderosos. Até que reescorou-se à máquina e soltou um “acho que foi nada” que foi tudo: clanqueando craqueou, abrindo a terra ao meio. Engoliu-se tudo, rolando máquina e Miltinho, tipo e tinta pra dentro do buraco, como que bolita ao saco, findando a função. A Mancha só cronometrou o pular fora do vulcão e desmaiou.

Despertou à hora do dormir. Mas nem com trim, foi com clanc. Susto tremendo, deu nela: “voltava Miltinho, do mundo sem tinta, para assombro?” Levou os olhos ao nada, viu um deschão enorme. Baixo lá, minhocando, Miltinho imprimia, clanqueando como sempre, no fundo do vão: “A tinta será pouca. Baixa-me mais.” Ela risonhou, pensativa: “Ufa, nada mudou. Tudo é feito ontem”.

Componedor, galera, gaveteiro, clanc; benzeno, esponja aguada, chumbo, clanc; guilhotina, resma, pinça, clanc; cola, tinta, espátula, clanc; cliché, picotadora, grampeador, clanc; lixa, registro, numeradora, clanc; manche, esquadro, bandeja, clanc. Tudo lá na fenda, greta, era clanc. E a Mancha rinhosava bis, acordando: “Sim, vindouras graças, hoje é ontem”. 

Às primeiras, tudo eixado. Conversavam muito. Ela acadeirava juntinho ao U, ele desimprimia, por ouvir. Ela novelava-lhe a realidade lá de fora, para esquecesse a saudade, ele divertia-lhe descrevendo o que de doido dali: baratas de chumbo, minhocas com frases tipadas em S, até um, feito camarão de terra, que parecia brilhar cor verde dos verdes. Era uma fauna deles.

Mas o buraco era grande, o espaço era vasto e, às últimas, o só sondou. Não podendo Miltinho subir, nem baixar a outra, fazia-se difícil, já, parolar. A fauna já desassuntava. E, entrabalhado, Miltinho tampouco luxaria-se desligando a tipográfica para trela. O clanc os ensurdecia. “Tá ouvindo?” “O quê?” “Deixa”. Poucou e só calavam. Estavam feitos passarinhos de vôos alheios, desbandados. Até que limitaram-se ao “Dá a tinta” e ao resmungar da corda, descaindo. 

Miltinho: nem sabia se invejando o gargalhar das putas, madrugador, mas ao um mês cantava o sofrer, como o pássaro.

Mancha: limitava-se a baixar tinta e guilhotinar resmas. E olhava novela, sem escutar mais que o clanquear como trilha. 

Miltinho: enfureceu-se à última visita do Manjericão. Desgostou o que ouviu, vindo lá da cima: silêncio.

Mancha: a novela se aquentava. Quando Miltinho acordava, fim de tarde, ela só baixava a tinta e voltinhava. Se esquecia das lembranças?

Miltinho: Manjericão voltava, diando. Por ocaso era ele esquecido? Atuavam como nadinhasse.

Mancha: caída em amores pelo herói da novela, desconheceu realidade e ficção. Queria-lhe um final feliz.

Manjericão: queria meter o dedo na Mancha. Quando viu Miltinho no buraco, virou praga.

Mancha: ao fim da novela, chorou. E decidiu que a tristeza era dela, fugando mais o Manjericão.

Findou comida e tinta no dia primeiro. Miltinho sentiu ecoar dentro. Passou no vácuo do vão, vagando idéias, mais tantos tempos. Daí o que doeu foi a falta da companhia mesmo. Desmanchava. E riu ao chorar, ao dar-se com lágrimas verde-amazônia. Lembrava os pais. Feito rápido, espatulou a cara e tintou os rolos com pranto. Daí tipou em caixa alta, por lhe escutassem: “O CLANC RACHOU O CHÃO. PADEÇO DE SAÍDA”.

Vincou a folha e aviou-a ao léu. Observôo. Não propalou. Retentou, soprando com o olho, mas nem nada. Já era um bum, pobre Miltinho. Então voltou, deu à manivela para trimprimir, mas nem clanc, foi crack: era o chão de Miltinho, que rerrachava.

Lenguas ajenas

Publicado en Uncategorized por Silveira en Noviembre 25, 2007

Ahora me toca volver a escribir en una lengua ajena. Los recomienzos que siempre traen los recuerdos de los tiempos oscuros en que mi madre se había ido sin irse de casa, en los que mi padre se había muerto sin nunca pegarse un tiro (lo que ha hecho posible que luego volviera a la vida) y en los que mis hermanas no hacían más que dedicarse al olvido de sí mismas, buscándose otras versiones de sus personalidades que no las que contaminaban la realidad de aquellos días y que no traían otros significados, además de miedo y desamparo. Yo, el más pequeño, navegando en patera dentro del océano-torbellino de fracasos familiares, desconexiones históricas y liturgias rutinarias, tampoco me dedicaba a algo constructivo, sino que, tras aventurarme en el hockey, en la música y en el dibujo, intentaba sujetarme en algún trozo de tierra firme, que me mantuviera a salvo de las fuertes corrientes que arrastraban mis posibilidades de futuro. Y digo que no era algo constructivo porque, en mi búsqueda costera, acabé por detenerme en una isla solitária, esta perdida isla paradisíaca de la poesía, donde los únicos frutos que saciaban mi hambre eran la soledad y el silencio. Allí estuve años, náufrago familiar, buscando aprender el lenguaje nativo, una poesía llena de melancolía y tristeza, tan características de las almas de mis conterráneos. Y he desarrollado esta extraña sensación de pertenecer a un alma ajena, de mirar con los ojos ajenos, hasta el punto máximo de morir de una muerte ajena. Y he despertado en mí, tanto tiempo después, pero todavía lleno de lágrimas partiéndome el rostro quemado. Ahora me toca volver a escribir en una lengua ajena. Y las palabras saben a sal, arena y sol, el tan solitario sol que túmbase sobre estas islas, no más que para tener una compañía con las que compartir su soledad.

Sagacidade

Publicado en Uncategorized por Silveira en Noviembre 22, 2007

Sagacidade, meu filho, sagacidade é a palavra. Tem quem ache que não lembrar é a melhor forma de esquecer. Nada. Alguns acham até que raiva é que resolve. Mas essa misturinha de rancor e fraqueza só dá em papelão. E papelão só serve pra tapar buraco, não esquece. Tá, vá lá que a fraqueza é de todo ser, mas eles entenderam tudo errado, filho. Fraqueza nossa, natural, tá na cabeça, não no coração. O resto é maldade pura, ódio, ignorância, tudo, tudo fruto do quê? Da mais pura burrice. Isso é gente burra, de burra passa a metido a besta, de metido passa a orgulhoso, de orgulhoso passa a estagnado, de estagnado passa a presunto morto. Sim, porque este tipo de gente não sabe do pós-morte. Saber, sabe. Mas não acredita. Dizem que são realistas. Sei, realistas seriam se admitissem este medo de conhecer o novo. Medo, puro medo. Adoram é criticar aqui, criticar ali, mas na hora de sentar o pé na porta, de fincar a faca no mapa, aí desconversa cá, desdobra acolá, tudo vira impossível. Difícil, filho, não esquece, é ser homem de verdade, rapaz, carregar nas costas o peso da vida, sem usar carrinho de mão dos outros. E se for usar, filho, aí que sejam dois carregando juntos mesmo, nunca essa farsa que aí chamam de casamento. Tem quem case pra sair de casa, tem quem case pra montar apartamento, tem quem case pra não ficar sozinho, tem uns que simplesmente pra se livrar da fraqueza de gente que são. Mas filho, digo agora e nunca mais, vê se não esquece: casar só se for assim, que nem eu e a tua mãe, amor destes que um morre e o outro capota junto, tão um somos os dois. Não vá lá perder teu tempo com gente pobre de espírito, pobre de alma, essa gentinha que coleciona crítica pensando que isso é ter opinião. Vá sempre pelo caminho do coração, filho. Pra chegar lá, o que precisa? Isso, filho meu, sagacidade, sagacidade, esta é a palavra.

Nem ré começo

Publicado en Uncategorized por Silveira en Noviembre 22, 2007

Depois de tanto, no literato, começo aqui outro caminho. Porque o caminho é a viagem. E o começo do caminho é a viagem do começo, recomeço, réu começo.