Un hijo
Se van a casa los obreros
olvidados de los cuervos
que no siembran más venenos
ni en mi tierra ni en la tuya
Se van en paz, ya, los añejos
padres de las que no lloran
por niños que ya no mueren
ni los nuestros ni los suyos
Ya la navaja se ha dejado
y los bancos ya no roban
ni me roban más los bancos
y a ti tampoco te roban
Ya no hay más laberintos
ni cárceles que son cuerpos
Ya no hay agujeros blancos
en el pecho del pasado
Ya no se ven más espinos
en la superficie del mundo
y por la puerta de la vida
un ángel cruza sereno
Nervios
Nervios como pelos negros
cubriéndome los ojos
nervios como mil bocas
hablándome al oído
nervios como una bola
y yo el gato, impotente
nervios como manos
que agarran a mis manos
nervios como la felicidad
que llega y me abraza
Correntes do passado
Sigo a corrente blogueira, não sem certa demora, de fazer 6 revelações pessoais, como exigiu o admirado amigo Guilherme Póvoas:
1. Aos dez, metaleiro, usava uma bandana dos EUA na cabeça.
2. Aos 9 (?), dancei em público imitando ao Michael Jackson. Chapéu e tudo.
3. O eixo estrutural da primeira música que compus era a seguinte frase: “Bósnia, Bósnia, meu nome é guerra; o nome do pai é Yugoslávia, o nome da minha mãe é Russia (e aqui entrava um gritinho a la Axl Rose).
4. Trinta segundos antes de saltar de paraquedas, tive uma ânsia de vômito que obrigou aos outros dois tripulantes do micro-avião a se expremer com medo à força da natureza.
5. Meu primeiro esboço de novela era uma cópia vergonhosa de Cem Anos de Solidão.
6. Por controvérsias alheias, comi no McDonalds com a camiseta do Che. Com essa o Fidel me bota na rua. Fazer o quê?
O seguinte será o Sr. Sílvio Pilau, do Viagem Literária.
Miltinho, Gutemberg e a Mancha
Era um tipo raro. Diz-se que foi impresso na vida. E diz-se que batizado no benzeno. Nasceu filho de gráficos, de prole que fede a solvente. Nada mais dar com o mundo, matéria riquinha, era. No se criar é que faltou, restando um chumbaço disforme, cinza e fátuo, no qual a vida descuidou moldar uma letrinha.Sendo homem, lhe criam só. Era moço de não-os-toco, cheio de calados. “Chapa de um único tipo, singletype?” – roufinhava o pai, imprimindo o tema. “Era fora de registro, homem, homogênio assim, descasar para sempre” – compunha a mãe. Estampavam-lhe o destino à cara. Miltinho só mimicava.
“Trabalho é concha de homem”, encucava ele, moçudo. Dava com viver na gráfica, progênita, suando segundos. Seu relógio tictaqueava no clanc, da tipográfica. Libertados prisioneiros verdes, clanc; o biodiesel é a fome, clanc; o contracambio climático, clanc. Pulsava clanqueando e a numeradora marcava seu tempo.
Autêntico dizer que a tipográfica era ímpar no raio. Mentira que, isso, configurasse feito enriquecente. “Tipografar, só a máquina do estado”, rezava o rei, rijo. Restava tintar subvercores. Imprimiam um vil-vão verde volante, para o probido partido “Primeiro o Planeta”. Nem soubessem, sabendo, do tema. Nadavam. Mas era até sonoro de ver, família de lutadores de algo por alguém. Isso sim, sabiam de cor: a vinílica verde-amazônia, com que tintavam tudo. Era cheiro que apalpava neles. Falaram-lhes nariz da revolução.
Mas aposentavam, os pais, desvivendo. Foi aí, berro de oportunismo, que Miltinho caiu em paixão. Chegou em casa sem cor, sedento: “Pais: caso”. E casou com a Mancha, moça vinílica, densa, mas de alma molengosa e cheia. Miltinho gostava de cheiro nela. Os pais chegaram ao que já seria: hora de Miltinho herdar a tipográfica.
Foi vidar mais a Mancha bem no alto da colina, debaixo das emputecidas do cafetão Alírio. Era poço, porão, fedente a chumbo, tinta e oco. Parecia ório único, dividido em dormitório, mictório e refeitório. Ali pôs a tipográfica, ferrada. Tarugona, ocupando, eles viviam periféricos dela, estreitados.
Chumbo, tinta, papel e clanc. Mal prendiam as luzes do povoadinho, clanc: girava o rodão falante da tipográfica. Clanc, libertados prisioneiros verdes; clanc, novas pautas à luta clandestina; clanc clanc, vida retoma seu rumo selvagem. Daí até crepuscular o dia que viria, clanc, ela imprimiria o pulso, só calando aos quinze clancs para as sete. Na manhã, Miltinho manchava-se.
Do partido, só viam salpicar o Manjericão, apodo do homem alto, adiposo, resbalento, representativo dos verdes. Costumava sextafeirar, sem descumprir; plantava-se ali, com um montículo de folhas calizmente grafadas e os pagares. Era dia de festejar, dia do Manjericão. Miltinho atentoso, feito abelha colmeiando, punha e punha as folhas até pilhar-las perfeitinhas à galera de tipos, ao passo que a Mancha ensacolava os bilhetes da ganância. Desse jeitinho, de punha e passo, perduravam, pequenos e pacientes.
Tecia-se noite seca e fazia-se bom, à rua. A máquina tirava firme, clanqueando, maldormindo o povo. Carrosselava, feito em circo, só que sem o engraçar-se. Daí foi que a Mancha viu e “Oh! O clanc rachou o chão”. Ele manvivelou para off e sapeou ao lado, calado. Deu vintinho antes de descalarem: “Deve que sossegou-se”.
Parecia que o mundo shiiiii. Estopou a testa, secando o nervoso. Intercalou os pés, cercando o ruído. Ele mais a Mancha, ponderosos. Até que reescorou-se à máquina e soltou um “acho que foi nada” que foi tudo: clanqueando craqueou, abrindo a terra ao meio. Engoliu-se tudo, rolando máquina e Miltinho, tipo e tinta pra dentro do buraco, como que bolita ao saco, findando a função. A Mancha só cronometrou o pular fora do vulcão e desmaiou.
Despertou à hora do dormir. Mas nem com trim, foi com clanc. Susto tremendo, deu nela: “voltava Miltinho, do mundo sem tinta, para assombro?” Levou os olhos ao nada, viu um deschão enorme. Baixo lá, minhocando, Miltinho imprimia, clanqueando como sempre, no fundo do vão: “A tinta será pouca. Baixa-me mais.” Ela risonhou, pensativa: “Ufa, nada mudou. Tudo é feito ontem”.
Componedor, galera, gaveteiro, clanc; benzeno, esponja aguada, chumbo, clanc; guilhotina, resma, pinça, clanc; cola, tinta, espátula, clanc; cliché, picotadora, grampeador, clanc; lixa, registro, numeradora, clanc; manche, esquadro, bandeja, clanc. Tudo lá na fenda, greta, era clanc. E a Mancha rinhosava bis, acordando: “Sim, vindouras graças, hoje é ontem”.
Às primeiras, tudo eixado. Conversavam muito. Ela acadeirava juntinho ao U, ele desimprimia, por ouvir. Ela novelava-lhe a realidade lá de fora, para esquecesse a saudade, ele divertia-lhe descrevendo o que de doido dali: baratas de chumbo, minhocas com frases tipadas em S, até um, feito camarão de terra, que parecia brilhar cor verde dos verdes. Era uma fauna deles.
Mas o buraco era grande, o espaço era vasto e, às últimas, o só sondou. Não podendo Miltinho subir, nem baixar a outra, fazia-se difícil, já, parolar. A fauna já desassuntava. E, entrabalhado, Miltinho tampouco luxaria-se desligando a tipográfica para trela. O clanc os ensurdecia. “Tá ouvindo?” “O quê?” “Deixa”. Poucou e só calavam. Estavam feitos passarinhos de vôos alheios, desbandados. Até que limitaram-se ao “Dá a tinta” e ao resmungar da corda, descaindo.
Miltinho: nem sabia se invejando o gargalhar das putas, madrugador, mas ao um mês cantava o sofrer, como o pássaro.
Mancha: limitava-se a baixar tinta e guilhotinar resmas. E olhava novela, sem escutar mais que o clanquear como trilha.
Miltinho: enfureceu-se à última visita do Manjericão. Desgostou o que ouviu, vindo lá da cima: silêncio.
Mancha: a novela se aquentava. Quando Miltinho acordava, fim de tarde, ela só baixava a tinta e voltinhava. Se esquecia das lembranças?
Miltinho: Manjericão voltava, diando. Por ocaso era ele esquecido? Atuavam como nadinhasse.
Mancha: caída em amores pelo herói da novela, desconheceu realidade e ficção. Queria-lhe um final feliz.
Manjericão: queria meter o dedo na Mancha. Quando viu Miltinho no buraco, virou praga.
Mancha: ao fim da novela, chorou. E decidiu que a tristeza era dela, fugando mais o Manjericão.
Findou comida e tinta no dia primeiro. Miltinho sentiu ecoar dentro. Passou no vácuo do vão, vagando idéias, mais tantos tempos. Daí o que doeu foi a falta da companhia mesmo. Desmanchava. E riu ao chorar, ao dar-se com lágrimas verde-amazônia. Lembrava os pais. Feito rápido, espatulou a cara e tintou os rolos com pranto. Daí tipou em caixa alta, por lhe escutassem: “O CLANC RACHOU O CHÃO. PADEÇO DE SAÍDA”.
Vincou a folha e aviou-a ao léu. Observôo. Não propalou. Retentou, soprando com o olho, mas nem nada. Já era um bum, pobre Miltinho. Então voltou, deu à manivela para trimprimir, mas nem clanc, foi crack: era o chão de Miltinho, que rerrachava.