Eu tive um pesadelo agora


Acordou suando coito. Donde estou? Que fizeste, José? Donde andas? Nu, estava, mas fez questão de rapidamente mergulhar nas calças, meter a camisa, pisar o sapato. Foi com as mãos ao bolso, nem dinheiro, nem chaves, nem nada. Donde estou? Passou a mão sob a água do banheiro azulejado, a mão no rosto, ainda foi até a janela ver de que lugar e de que altura olhava. Segundo. Teve cuidado pra não fazer barulho. Podia ouvir alguém conversar na cozinha, era o que parecia. Que fizeste, José? Suspirou, abriu a janela e se pôs a descer, segurando-se ao cano que também descia, depois ao muro de cacos de vidro, depois à rua. Donde andas? Pelo sol, deu crédito de horas ao meio-dia. Ajudou-lhe o olfato de comida, zona residencial. Donde estou? O sol da Porto Alegre de janeiro evaporava seu fedor de sexo. Que fizeste José? Foi cruzando as ruas, até encontrar uma parada de ônibus, observar um a um, já sei por onde andas, José. Fez sinal ao primeiro, correu pressionado pela calça de escritório, a camisa de escritório, o fedor do sexo de escritório, e entrou sem cumprimentar o motorista. Faça a fé, seu moço, tô sem grana, me assaltaram. O cobrador olhou para o sujeito de escritório, desconfiou do bigode sem barba, fez cara feia para o cheiro e tudo bem. Senta aí. Ele sentou, ficou vendo o sol cair do céu, a panela de água quente que descia de lá virando fumaça em segundos. Limpou a testa com a mão, a mão na calça, a calça no banco. Uns quinze minutos e levantou, agradeceu ao cobrador, desceu na Protásio. O cabelo preto lhe enrolava o suor, aquecendo a cabeça, o bigode aparava o suor que a sobrancelha aparava que ia escorrer pelo pescoço e lhe molhar a camisa. Desabotou o primeiro botão, via-lhe a regata branca. Entrou no primeiro bar. Uma bem gelada, seu Antunes. O tal olhou desconfiado, foi até a geladeira, serviu a tal, o outro bebeu. Bota na pendura que hoje a coisa tá ruim. Pendura, só pra conhecidos. Sorte a minha. Paga a cerveja pra não se incomodar rapaz, disse um outro da mesa. José olhou para o lado, voltou a olhar o velho Antunes, sabe lá que pensa José. Tô sem nada, tô duro, seu Antunes, vai me deixar numa dessas? O relógio, respondeu de trás do bar, deixa o relógio. José botou o relógio na mesa, saiu puto. Velho filha da puta, como se não me bastasse acordar na pôrra do fim do mundo, este velho puto ainda me faz desta. Explica isso pra Rosinha, explica? Sem chave, sem dinheiro, sem documento, sem a pôrra do relógio. Entrou no portão de casa, cheiro de comida, ainda sol do meio-dia. Três batidas na porta, um grito. Rosinha! Três vezes o tamanho de José, abre a porta um homem alto, barba fechada, cara feia. Quer o que com ela? Como, quer o quê, é minha mulher, pôrra! Tua mulher o cacete, Rosinha! Chega esta. Quem é, amor? Um safado dizendo que é teu marido. Tu conhece? Nunca vi mais louco, nem mais fedorento, e saiu a dar risada, levando uma menina pequeno com ela. Peraí, quem é essa menina, perguntou José, quem é? Minha filha e isso não é da tua conta, tarado. Bastou o ¿filha¿ para que José perdesse a força dos braços, se deixasse jogar para trás pela força que o outro exercia na porta e blam, tá lá porta fechada, homem lá dentro, José lá fora. Que fizeste, José? Tomaste uma bomba, José? Levantou, ficou olhando a casa, da janela o homem ainda olhava com raiva. Nem engolira e já vomitara José. Dos fundos, vem o cão a latir, vade retro, José levanta apressado, junta a si mesmo, se toca até a rua, bate o portãozinho de ferro, olha mais uma vez para o marido de sua mulher. Vai embora, José. A mesma água quente dançando no ar, deve ter queimado o vento. Para em frente à casa da vizinha, pergunta as horas, ela responde. Quinze pra uma, moço. Moço, quer dizer que nem tu me reconheces, Joana, pôrra? Desculpa, moço, se conheço o senhor e não tô lembrada, mas nem sua cara nem seu tom de voz me parecem comuns. E vai lá pra dentro a Joana, a moça brava, vai cozinhar e lavar para o marido, vai ler revistas e costurar camisas e deixa José na rua. Mais uma vez a mão na testa e sai a caminhar, pega uma sombra, caminha tantas quantas quadras forem possíveis, não são muitas. Ainda o cheiro de almoço subindo das casas, ainda o cheiro de sexo subindo do corpo. Pára em uma ruela, olha uma casa, família almoçando nos fundos com os amigos, a porta da frente aberta, bons tempos de fé nos homens, a carteira sobre a cristaleira, ali ele entra de mansinho, de malandro, pega a carteira, da sala uns olhos o encaram, um menino não mais que seis, não mais que sete. Teu pai pediu que eu pegasse a carteira dele aqui. Meu pai não tá aqui. E onde é que tá? Meu pai tá na vó. Pois, guri, também eu tava lá agora, vim cá só pra buscar a carteira pra ele, mas ó, não conta pra ninguém, bico fechado, viu? Não entendeu se foi o cheiro ou foi o tom de voz, só viu que o piá se botou a chorar, engoliu o ar do mundo a chorar, vieram todos a escutar e ver o choro, que era choro lindo de se ver, e José já era só vento em meio ao mormaço. Desapareceu. Quando o menino engoliu as lágrimas, já estava quilômetros dali. Três cervejas, aqui não dá mais que três cervejas, pensou José olhando a carteira, que pôrra que eu vou fazer? Pegou a Venâncio ensolarada e foi até a João Alfredo, vou falar com o Marquinhos, quem sabe passo lá a noite, quem sabe ele me empresta uma grana, quem diria o Marquinhos ter que me emprestar uma grana. Chegou até a entrada do prédio, era só ele e o sol que estavam ali. 112. Sim? Marquinhos, é o José, preciso de uma grana, cara. Peraí, vou descer já. Graças a Deus, José, Deus não esquecera dele, se o Marquinhos também não. Nem três minutos levou, apareceu uma sombra no fundo do vidro, a luz do elevador, o homem vem até a entrada, mal abre a porta. Já falei que vou pagar, pôrra. Que pagar, quero uma grana, Marcos. Mas o outro nem ouvia José. Sai daqui, minha mulher não sabe de nada, vou pagar até terça, prometo, agora sai daqui. Tá falando do quê, pôrra. Sai daqui, some daqui, eu vou lá e pago tudo, já falei. Não me empurra, pôrra. Sai daqui, some daqui. E fecha a porta o homem, o Marquinhos. José dá com a mão na porta, puto, puto, que merda de sol, que merda. Que fizeste, José? Donde andas? Sai dali, sem opção, que fazer, sai dali e vai pela João Alfredo, pega a Sebastião Leão, um bar na João Pessoa, o refúgio é um bar na João Pessoa. Senta, pede uma cerveja. Fica sem ver o mundo, mas o mundo cai lá fora, vai deixando o sol se ir, vem o jogo na TV, o Inter ainda tem o mesmo time, José nem vê, mas o seu time ainda é o mesmo, nem vê quanto paga ao velho do bar. Obrigado, moço. E ele responde. Meu nome é José. Mas que fizeste? Sai da João Pessoa e resolve voltar em casa, já está suando a camisa que é do corpo, a calça que é do corpo, a lembrança que é da alma. A cara ainda é de escritório, o bigode é de escritório. Chega na ruela da Protásio, senta do outro lado da calçada, escondido atrás da Sibipiruna. Espera, espera, uma hora saem, é domingo, Rosinha sempre sai no domingo. Ele cochila na sombra, o sol nem se lembra mais dele quando os três, a família, a sua que é de outro, saem cruzando as mãos, fecham o portão, deixam a casa. José já acordou, já viu, já pulou o portão, já fugiu do cachorro, o trancou no pátio da frente, já está forcejando a janela dos fundos. Já entrou. É o seu quarto, abre o armário mas não são suas roupas, escolhe camisa e calça ao seu gosto, mas não é o seu gosto. Abre a gaveta ao lado da cama, não é seu radinho, não é sua foto sobre a cômoda, é a foto da sogra abraçando o homem, o homem beijando Rosinha, Rosinha beijando o homem, o homem abraçando a sogra. Quanta raiva é não ser quem se pensa que é. Pula até o banheiro, nem há lâmina de barbear, nem há escova de dentes sua, só a deles, abraçadas uma com a outra, dançando a rotina uma ao lado da outra, dividindo as horas uma ao lado da outra, sendo casal uma ao lado da outra. Ele ao lado, sério. Tira sua roupa fedendo a tudo, entra no box, hesita alguns segundos antes de passar o sabonete no corpo, vai, azar, que merda, que merda, lava-se do cheiro, limpa-se de si, despido de identidade, nu de história. Do chuveiro cai um pranto esquecido. Já saiu do box, já colocou a camisa que sobra, a calça que sobra, o sapato é o mesmo. Joga a toalha sobre a cama, deixa ali também o cheiro do escritório. Abrem a porta, não é ele, é o outro, com Rosinha, com a filha que seria dele, ele pula a janela, agora do avesso, o puto do cachorro está a latir, já houve o homem, já corre o homem, já está na janela dos fundos a gritar. É aquele filho da puta, é aquele filho da puta! José chuta o cachorro do outro, corre até o portão, correu até a rua, corre até a esquina, correu atrás de si, o outro também vinha correndo, cansou, desistiu. Quiçás com medo de encontrar um amante da sua esposa, vá lá saber. José não era amante da sua esposa. Era marido. O ar seco entra no peito feito cinza de cigarro, ele descansa, estrala o pescoço, se joga na parada de ônibus. O mesmo que o trouxe pela manhã já chega. Já chega. Ele chama, entra, desta vez paga com o dinheiro do pobre coitado que estava a visitar a própria mãe, o pai do menino traumatizado com o tarado que uma vez lhe aparecera na porta de casa. José desce do ônibus. Pára na rua. Donde estou? Que fizeste, José? Sobe pelas casas com cheiro de janta, anda em torno do muro com vidros, não vai pular a janela. Bate à porta da casa. Uma menina olha da janela, grita. Mãe, é o pai. Nem se surpreende. Uma esposa abre a porta, olha as roupas do marido. Donde estava? Por aí, responde José. Ontem foi tão bom, tudo tão perfeito, pensei que irias passar o domingo em casa. Cá estou. Bom, sempre é tempo de recomeçar. Recomecemos o domingo, então. Vem pra dentro de casa. Já foi.

10 mil vidas


Não é de hoje essa minha cara melancólica. Antes de passar por aqui, enfrentei lugares tão mais piores que este, tão mais imersos em temores e maldições, que fui me encarcelando pouco a pouco. Enquanto o mundo começava a brotar do nada, eu cacei, pus fogo e pintei a vida. Fui mercenário líbio decapitado nas fronteiras egípcias, enquanto o mundo mal sabia que era um mundo. Como cananeu, montei emboscadas contra as forças hebráicas e paguei com cada órgão do meu corpo. Mas me vinguei, porque vi com meus próprios olhos quando Nabucodonosor pôs fogo ao templo de Salomão e levou consigo a Arca da Aliança. Assassinei e paguei com a vida na batalha de Salamina, agonizando por cinco dias na proa de um barco inimigo. Morri três vezes na batalha de Gaugamela, a ultima delas atingido pelo punho de um soldado pessoal do próprio Dario. Fui ostrogodo e morri com o ventre aberto nos cárpatos ucranianos, depois de ser traído por um irmão. Pelo braço firme do pró cônsul Craso, lutando em terras da capadócia, fui esfolado até a morte. Ordenei rebeliões ao lado de Judas e estava pregado em uma cruz ainda antes de Jesus pregar a verdade. Durante as convocações para o Conselho de Nicéia, caí em um emboscada que calou na alma qualquer das minhas revoltas. Fui feliz levando a mensagem de Maomé aos desertos da Eritréia. Fui por duas vezes líder entre os aztecas, mas provei de meu próprio veneno ao ser assassinado, muito tempo depois, como camponês maia. Carrego nas costas a vida de cinco de meus familiares, que morreram congelados ao me acompanharem na busca pelos confins do universo, através do gelo norueguês. Fui célebre professor em Alexandria e miserável agricultor no Chipre. Cavalguei ao lado das tropas de Saladín. Fui conselheiro pessoal e senhor dos gaviões de Kublai Khan, e foram eles que me mataram quando assim o quis o imperador. Alimentei minha família como pastor na Lapônia e como amo de porta da Alhambra. Fui padre inquisidor e bruxo incinerado, e em ambas vezes era um apaixonado por cristo. Reescrevi as mitologias irlandesas em um gelado quarto de mosteiro católico. Fui poeta do Albaicin. Testemunhei o terremoto de Lisboa e a guerra civil americana, escondido em um navio mercante francês. Tive toda minha família queimada pelos Afrikaners em sua busca desenfreada por terra. Fui expulso da China quando Lin Zixu Lin Tse-Hsü declarou a Guerra do Ópio. Atentei contra a vida de Lawrence da Arábia. Matei e fui morto en 17, em 59 e em 68. Fui companheiro de Lumumba, Biko, Kwame e Ben Bella. Chorei na copa de 50. Estive em Serra Pelada e em Serra Leoa. Lutei nas trincheiras soviéticas do Afeganistão e era comandante dos homens que mataram Marighella. Então não me diga para desfazer esta cara de asco. Eu não nasci assim há dez mil anos atrás.

Despierto


Hay veces en que uno piensa que, para empezar a escribir, basta con sentarse de la forma que más le guste en su propia silla, sorberse un poco del té que mejor le valga para tranquilizarse, echar en el cenicero el pucho del cigarro que acaba de fumar, para que luego, como si un dios despejara el cielo y saliera el sol, o como si, al revés, le asaltara un viento que comandara una tormenta, arrastrando fuerzas y pensamientos, las palabras simplemente empezasen a saltar, como ranas contentas en el día que amanece lleno de humedad, desde un mundo lejano – o, si no lejano, al meno oscuro y aparentemente inaccesible – describiendo acciones, es decir historias, es decir dramas – que, al fin y al cabo, todas historias lo son – hasta que no quede nada más que espacios carcomidos por personajes y tramas sin más ley que las que uno crea; sin más vida que las que uno inventa; sin más poesía que las que uno posee. Y es ahí, al releer lo que se ha escrito en este breve período, que uno se entera de la fragilidad de la escritura que nace del escritor y no del personaje; de la infantilidad de las palabras que brotan de una mente y no de una boca; de la incapacidad de otorgar vida a nombres y mentes falsas, cuando las verdaderas ya están a su lado, en el mundo más que real del más allá, que es este mundo tan dulce y sereno al cual llamamos, con el cariño y el cuidado que sólo a él podríamos tener, de mundo de la fantasía. 

Entonces, al debatirse con dicha imposición, uno es obligado a retroceder, caminar en pensamientos buscando Cortázar por el boulevard St. Michel o F. Pessoa en el alto Chiado, o quizás por las callecitas floridas de Etretat, buscando la posibilidad – si es que es posible buscarlas en algún mundo – de darse con Guy de Maupassant o Proust, hasta que uno de ellos le indique el camino al mundo de la idea humana, donde uno puede reconocer el verdadero mundo de la fantasía real, la noche de nuestro día, la muerte de nuestra vida, la ceguera opuesta a todo lo que vemos. Es ahí donde uno, tan sabiamente convicto de su papel de creador y criatura, quita toda la veste que lleva encima, corta el pelo de forma a que apenas quede algo de su antigua apariencia humana, y se pone a modelar sus personajes, dibujando lo que ya está dibujado, escribiendo diálogos que ya han sido dichos, relatando sentimientos que ya están plasmados en el ancho y largo agujero de la conciencia humana, sus sufrimientos y angustias, sus incapacidades y perezas, sus miedos y aflicciones, sus victorias y secretos. 

Son más de la una de la mañana cuando uno despierta sentado en la silla – que todavía le gusta – y ve sobre la mesa el té, así como el cigarro, ambos consumidos por el frío y por el tiempo. Encontrarse devuelto a una realidad enferma, identificar las señales que así lo testifican y comprueban, estornudar una o dos veces por la alergia que siempre tuvo a dicha realidad, todos esos motivos son más que suficientes para que uno guarde parsimoniosamente el archivo al que estuvo añadiendo historias en este pequeño rato metafísico, mire otra vez más a la luz que brilla sobre la puerta de la habitación donde duerme y espera la mujer de uno, y empiece a echar otro cigarrillo – qué daría, che, por otro té ahora -, esperando que otra vez más las palabras turbias le salgan y se vea obligado a buscar a ver si encuentra un Cortázar, un Borges, un Márquez, un Chejóv a indicar caminos por ahí afuera. Ahí, una vez más, podrá salir del mundo de la realidad fantástica para adentrar la fantástica realidad, tan buena y sabrosa que siempre podría haber sido.

El hombre perro


El hombre es un perro, no un hombre.
Porque de perros es callar y sentarse ante su dueño por un huesito ausente de carne
y dar su vida por un techo, su libertad por una migaja.
Es de perros amarle al dueño como si le amara;
siempre que se lo pida, siempre que se lo ordene.
El amor del perro es miedo y cobardía,
es una sonrisa que refleja el orden y no el alma.
De perros es sufrir el látigo y reincidir en el azote
y creerse el mejor amigo de la mano que lo sostiene.
Y llevar con orgullo la marca del dueño sobre el pecho,
encadenada a su cuello como una horca vil latente.
Es de perros, no de hombres, mear donde se le ordene,
hablar cuando se le permita y vivir como la sombra de un alma ajena.
Y pasar la vida encadenado a la deuda de su miedo.
Ladra, perro, ladra.
Muerde, perro, muerde.
Muere en el intento.
Allá donde caiga un dueño
Está la ruina de tu pena.