Miltinho, Gutemberg e a Mancha


Era um tipo raro. Diz-se que foi impresso na vida. E diz-se que batizado no benzeno. Nasceu filho de gráficos, de prole que fede a solvente. Nada mais dar com o mundo, matéria riquinha, era. No se criar é que faltou, restando um chumbaço disforme, cinza e fátuo, no qual a vida descuidou moldar uma letrinha.Sendo homem, lhe criam só. Era moço de não-os-toco, cheio de calados. “Chapa de um único tipo, singletype?” – roufinhava o pai, imprimindo o tema. “Era fora de registro, homem, homogênio assim, descasar para sempre” – compunha a mãe. Estampavam-lhe o destino à cara.  Miltinho só mimicava.

“Trabalho é concha de homem”, encucava ele, moçudo. Dava com viver na gráfica, progênita, suando segundos. Seu relógio tictaqueava no clanc, da tipográfica. Libertados prisioneiros verdes, clanc; o biodiesel é a fome, clanc; o contracambio climático, clanc. Pulsava clanqueando e a numeradora marcava seu tempo.

Autêntico dizer que a tipográfica era ímpar no raio. Mentira que, isso, configurasse feito enriquecente. “Tipografar, só a máquina do estado”, rezava o rei, rijo. Restava tintar subvercores. Imprimiam um vil-vão verde volante, para o probido partido “Primeiro o Planeta”. Nem soubessem, sabendo, do tema. Nadavam. Mas era até sonoro de ver, família de lutadores de algo por alguém. Isso sim, sabiam de cor: a vinílica verde-amazônia, com que tintavam tudo. Era cheiro que apalpava neles. Falaram-lhes nariz da revolução.

 

Mas aposentavam, os pais, desvivendo. Foi aí, berro de oportunismo, que Miltinho caiu em paixão. Chegou em casa sem cor, sedento: “Pais: caso”. E casou com a Mancha, moça vinílica, densa, mas de alma molengosa e cheia. Miltinho gostava de cheiro nela. Os pais chegaram ao que já seria: hora de Miltinho herdar a tipográfica.

 

Foi vidar mais a Mancha bem no alto da colina, debaixo das emputecidas do cafetão Alírio. Era poço, porão, fedente a chumbo, tinta e oco. Parecia ório único, dividido em dormitório, mictório e refeitório. Ali pôs a tipográfica, ferrada. Tarugona, ocupando, eles viviam periféricos dela, estreitados.

 

Chumbo, tinta, papel e clanc. Mal prendiam as luzes do povoadinho, clanc: girava o rodão falante da tipográfica. Clanc, libertados prisioneiros verdes; clanc, novas pautas à luta clandestina; clanc clanc, vida retoma seu rumo selvagem. Daí até crepuscular o dia que viria, clanc, ela imprimiria o pulso, só calando aos quinze clancs para as sete. Na manhã, Miltinho manchava-se.

Do partido, só viam salpicar o Manjericão, apodo do homem alto, adiposo, resbalento, representativo dos verdes. Costumava sextafeirar, sem descumprir; plantava-se ali, com um montículo de folhas calizmente grafadas e os pagares. Era dia de festejar, dia do Manjericão. Miltinho atentoso, feito abelha colmeiando, punha e punha as folhas até pilhar-las perfeitinhas à galera de tipos, ao passo que a Mancha ensacolava os bilhetes da ganância. Desse jeitinho, de punha e passo, perduravam, pequenos e pacientes.

Tecia-se noite seca e fazia-se bom, à rua. A máquina tirava firme, clanqueando, maldormindo o povo. Carrosselava, feito em circo, só que sem o engraçar-se. Daí foi que a Mancha viu e “Oh! O clanc rachou o chão”. Ele manvivelou para off e sapeou ao lado, calado. Deu vintinho antes de descalarem: “Deve que sossegou-se”.

Parecia que o mundo shiiiii. Estopou a testa, secando o nervoso. Intercalou os pés, cercando o ruído. Ele mais a Mancha, ponderosos. Até que reescorou-se à máquina e soltou um “acho que foi nada” que foi tudo: clanqueando craqueou, abrindo a terra ao meio. Engoliu-se tudo, rolando máquina e Miltinho, tipo e tinta pra dentro do buraco, como que bolita ao saco, findando a função. A Mancha só cronometrou o pular fora do vulcão e desmaiou.

Despertou à hora do dormir. Mas nem com trim, foi com clanc. Susto tremendo, deu nela: “voltava Miltinho, do mundo sem tinta, para assombro?” Levou os olhos ao nada, viu um deschão enorme. Baixo lá, minhocando, Miltinho imprimia, clanqueando como sempre, no fundo do vão: “A tinta será pouca. Baixa-me mais.” Ela risonhou, pensativa: “Ufa, nada mudou. Tudo é feito ontem”.

Componedor, galera, gaveteiro, clanc; benzeno, esponja aguada, chumbo, clanc; guilhotina, resma, pinça, clanc; cola, tinta, espátula, clanc; cliché, picotadora, grampeador, clanc; lixa, registro, numeradora, clanc; manche, esquadro, bandeja, clanc. Tudo lá na fenda, greta, era clanc. E a Mancha rinhosava bis, acordando: “Sim, vindouras graças, hoje é ontem”. 

Às primeiras, tudo eixado. Conversavam muito. Ela acadeirava juntinho ao U, ele desimprimia, por ouvir. Ela novelava-lhe a realidade lá de fora, para esquecesse a saudade, ele divertia-lhe descrevendo o que de doido dali: baratas de chumbo, minhocas com frases tipadas em S, até um, feito camarão de terra, que parecia brilhar cor verde dos verdes. Era uma fauna deles.

Mas o buraco era grande, o espaço era vasto e, às últimas, o só sondou. Não podendo Miltinho subir, nem baixar a outra, fazia-se difícil, já, parolar. A fauna já desassuntava. E, entrabalhado, Miltinho tampouco luxaria-se desligando a tipográfica para trela. O clanc os ensurdecia. “Tá ouvindo?” “O quê?” “Deixa”. Poucou e só calavam. Estavam feitos passarinhos de vôos alheios, desbandados. Até que limitaram-se ao “Dá a tinta” e ao resmungar da corda, descaindo. 

Miltinho: nem sabia se invejando o gargalhar das putas, madrugador, mas ao um mês cantava o sofrer, como o pássaro.

Mancha: limitava-se a baixar tinta e guilhotinar resmas. E olhava novela, sem escutar mais que o clanquear como trilha. 

Miltinho: enfureceu-se à última visita do Manjericão. Desgostou o que ouviu, vindo lá da cima: silêncio.

Mancha: a novela se aquentava. Quando Miltinho acordava, fim de tarde, ela só baixava a tinta e voltinhava. Se esquecia das lembranças?

Miltinho: Manjericão voltava, diando. Por ocaso era ele esquecido? Atuavam como nadinhasse.

Mancha: caída em amores pelo herói da novela, desconheceu realidade e ficção. Queria-lhe um final feliz.

Manjericão: queria meter o dedo na Mancha. Quando viu Miltinho no buraco, virou praga.

Mancha: ao fim da novela, chorou. E decidiu que a tristeza era dela, fugando mais o Manjericão.

Findou comida e tinta no dia primeiro. Miltinho sentiu ecoar dentro. Passou no vácuo do vão, vagando idéias, mais tantos tempos. Daí o que doeu foi a falta da companhia mesmo. Desmanchava. E riu ao chorar, ao dar-se com lágrimas verde-amazônia. Lembrava os pais. Feito rápido, espatulou a cara e tintou os rolos com pranto. Daí tipou em caixa alta, por lhe escutassem: “O CLANC RACHOU O CHÃO. PADEÇO DE SAÍDA”.

Vincou a folha e aviou-a ao léu. Observôo. Não propalou. Retentou, soprando com o olho, mas nem nada. Já era um bum, pobre Miltinho. Então voltou, deu à manivela para trimprimir, mas nem clanc, foi crack: era o chão de Miltinho, que rerrachava.

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