Noite dos Livros em Madrid


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Não eram nem oito. O céu rosado de Madri transpirava, ansioso: sabia que ninguém dormiria. Deixei o trabalho como um relógio, as pernas correndo com os ponteiros. Queria chegar à rua Fuencarral, a livraria mais próxima, botar meus olhos de molho naquele montão de gente, de livro, de livro-gente. Aquela aura quase insuportável de celebração dominava Madri, essa emoção cheia de frescura juvenil, de esperar uma festa que fazquenuncachega. Eu já não chegaria, em tempo, à oficina literária sobre a escritura automática de Mallarmé, já não me colaria nas melhores conferencias da Casa de América ou do Ateneu, mas isso era o de menos. O demais era o cheiro de livro evaporando, aquele sem-idade de gente passeando, lendo as ruas. Assim que encontrei minha mulher e nos metemos em um tênis, subimos na calçada e nos deixamos levar, desde a estátua de Quevedo até a de Ortega y Gasset, sendo lidos pela cidade.

Uma grande jogada de marketing das editoras, a Noite dos Livros de Madri, abrindo caminho para uma triunfante Feira do Livro (maio-junho). Mas a festa foi muito além das barreiras comerciais. Em sua cuarta edição, assim como em suas anteriores, o brilho ficou por conta da incomparável capacidade do povo madrileño de assumir para si uma festa, tomar as ruas, confraternizar e celebrar a cultura.

Repetindo o sucesso da “Noche en blanco” (que mantém a capital espanhola e outras capitais européias velando por toda a madrugada em torno a eventos culturais), a Noite dos Livros cumpriu seu papel de incentivar as vendas e, de lambuja, a leitura. Mas o verdadeiro saldo positivo da noite é para os escritores, tanto os consagrados – que promoveram suas obras por todos os cantos da cidade – como os iniciantes – que participaram em oficinas literárias, desfilaram por bares e tertúlias com leituras e debates, pra tudo acabar na mesma sexta-feira.

A estrela literária da noite foi o catalão Juan Marsé, consagrado pelo último Premio Cervantes, ainda que seguido de perto pelo fantasma – em sentido estricto – de Stieg Larsson, o sueco que depois de morto conquistou o mercado editorial europeu. Marsé inaugurou as festividades lendo as primeiras linhas da “XIII Leitura Continuada de El Quijote”, e em todas os bares, auditórios e ateneus da cidade, outros 400 escritores e artistas seguiram seu exemplo.

Também seguimos. Passamos pelos bares de Camilo José Cela, pelas ruas que Lorca, Alberti, Onetti e Neruda cruzaram há muito tempo e que voltaram a cruzar nesta sexta-feira de São Jorge, milhares de vezes. Para um bom brasileiro, ver tanto livro assim pelas ruas parece até um milagre. Salve São Jorge! Nem importa que os métodos do santo sejam as do capitalismo. Me basta com que as pessoas vejam, respirem, chutem esta imensa porta de oportunidades que representa um livro.

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2 pensamientos en “Noite dos Livros em Madrid

  1. Juju

    A mim só bastaria uma única livraria, já seria bem mais feliz.

    Dia 11 começa a feira do Livro aqui na cidade, VIVA!!! Vamos respirar.

    Responder
  2. mãe

    Caminhar pelas de madrid de braço dado com meu filho…mesmo que através das letras é bom demais!!Deu pra ver as luzes, o sorrisos jovens, as livrarias cheias, o borburinho!
    Não desisti, ainda caminharemos de braços dados em Madrid!
    beijos

    Responder

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