10 mil vidas


Não é de hoje essa minha cara melancólica. Antes de passar por aqui, enfrentei lugares tão mais piores que este, tão mais imersos em temores e maldições, que fui me encarcelando pouco a pouco. Enquanto o mundo começava a brotar do nada, eu cacei, pus fogo e pintei a vida. Fui mercenário líbio decapitado nas fronteiras egípcias, enquanto o mundo mal sabia que era um mundo. Como cananeu, montei emboscadas contra as forças hebráicas e paguei com cada órgão do meu corpo. Mas me vinguei, porque vi com meus próprios olhos quando Nabucodonosor pôs fogo ao templo de Salomão e levou consigo a Arca da Aliança. Assassinei e paguei com a vida na batalha de Salamina, agonizando por cinco dias na proa de um barco inimigo. Morri três vezes na batalha de Gaugamela, a ultima delas atingido pelo punho de um soldado pessoal do próprio Dario. Fui ostrogodo e morri com o ventre aberto nos cárpatos ucranianos, depois de ser traído por um irmão. Pelo braço firme do pró cônsul Craso, lutando em terras da capadócia, fui esfolado até a morte. Ordenei rebeliões ao lado de Judas e estava pregado em uma cruz ainda antes de Jesus pregar a verdade. Durante as convocações para o Conselho de Nicéia, caí em um emboscada que calou na alma qualquer das minhas revoltas. Fui feliz levando a mensagem de Maomé aos desertos da Eritréia. Fui por duas vezes líder entre os aztecas, mas provei de meu próprio veneno ao ser assassinado, muito tempo depois, como camponês maia. Carrego nas costas a vida de cinco de meus familiares, que morreram congelados ao me acompanharem na busca pelos confins do universo, através do gelo norueguês. Fui célebre professor em Alexandria e miserável agricultor no Chipre. Cavalguei ao lado das tropas de Saladín. Fui conselheiro pessoal e senhor dos gaviões de Kublai Khan, e foram eles que me mataram quando assim o quis o imperador. Alimentei minha família como pastor na Lapônia e como amo de porta da Alhambra. Fui padre inquisidor e bruxo incinerado, e em ambas vezes era um apaixonado por cristo. Reescrevi as mitologias irlandesas em um gelado quarto de mosteiro católico. Fui poeta do Albaicin. Testemunhei o terremoto de Lisboa e a guerra civil americana, escondido em um navio mercante francês. Tive toda minha família queimada pelos Afrikaners em sua busca desenfreada por terra. Fui expulso da China quando Lin Zixu Lin Tse-Hsü declarou a Guerra do Ópio. Atentei contra a vida de Lawrence da Arábia. Matei e fui morto en 17, em 59 e em 68. Fui companheiro de Lumumba, Biko, Kwame e Ben Bella. Chorei na copa de 50. Estive em Serra Pelada e em Serra Leoa. Lutei nas trincheiras soviéticas do Afeganistão e era comandante dos homens que mataram Marighella. Então não me diga para desfazer esta cara de asco. Eu não nasci assim há dez mil anos atrás.

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